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terça-feira, 28 de junho de 2022

A Irmã Marie-Ange, uma freira com síndrome de Down: a alegria de seguir e amar Cristo

Créditos: © Collection privée. Jubilé de Petite Sœur Marie-Ange.

Um retrato da Irmã Marie-Ange, uma freira com síndrome de Down, que foi chamada de volta a casa de Deus aos 53 anos de idade, após ter passado 33 anos num humilde mosteiro

A Irmã Marie-Ange viveu a sua vida religiosa na comunidade das Pequenas Discípulas do Cordeiro. Uma comunidade fundada em 1985, única no mundo, que acolhe religiosas com síndrome de Down para que possam viver a sua vocação contemplativa. Em um livro (Choisie pour l’éternité! Marie-Ange et les petites sœurs Disciples de l’Agneau, ed. Artège), Raphaëlle Simon pinta um retrato luminoso da religiosa.

Marie-Ange nasceu em 1967, numa altura em que a síndrome de Down era apenas conhecida, experimentada como um defeito, até mesmo uma vergonha, e sem qualquer apoio da sociedade. Providencialmente, ela juntou-se à comunidade das Pequenas Discípulas do Cordeiro no seu início em 1987. Permaneceu ali até à sua morte em 2020, no final de uma vida consagrada que deixou uma impressão duradoura nas pessoas à sua volta.

As Irmãzinhas lembram-se da simplicidade, doçura e alegria de viver de Marie-Ange, e das suas “boas palavras” inspiradas pelo Espírito Santo, tais como “Viver em paz” ou “Sou uma freira para a eternidade”. Elas gostam de recordar os bons momentos que passaram juntas, e os hábitos de Marie-Ange, tais como copiar à mão seções inteiras dos Evangelhos, uma forma dela imergir na Palavra de Deus.

Vocação

Se Marie-Ange conseguiu viver a sua vocação em boas condições materiais, espirituais e fraternas, foi graças a um ambiente pioneiro, defendido pelo Papa João Paulo II na sua encíclica Evangelium Vitae, publicada em 1995. Nela, o Papa afirma o valor e inviolabilidade de cada vida humana, inscrita desde a sua origem no “plano de Deus”.

A comunidade de Marie-Ange foi benevolente, mas também corajosa e até pioneira. Profundamente cristã, a sua família foi no entanto abalada pelo anúncio da síndrome de Down da sua filha mais nova, e durante algum tempo retirou-se para dentro de si mesma.

Os pais de Marie-Ange foram felizmente postos em contato com o Professor Jérôme Lejeune, que foi capaz de responder às suas ansiedades e devolver-lhes a esperança, em particular através desta feliz profecia:

“Ela saberá amar melhor do que nós”.

Eles compreenderam que a sua filha não tinha “algo menos”, mas “um talento próprio, uma nota única para tocar na partitura da vida”. A provação não é menos pesada, mas é agora transfigurada por uma esperança cristã, que eles sabem que nunca desaponta.

Uma comunidade especial

A Madre Line, fundadora e superiora da comunidade das Pequenas Discípulas do Cordeiro, soube, como uma pioneira, deixar-se guiar pelo Espírito Santo quando viu uma necessidade.

Em 1984, Line Rondelot conheceu uma jovem com síndrome de Down, Véronique, que tinha tentado entrar numa ordem religiosa para viver a sua vocação, mas sem sucesso. Line percebeu nela um autêntico apelo à vida religiosa. Sentiu-se chamada a cumprir a sua vocação ao serviço das “pequenas, das humildes”, dando às pessoas com síndrome de Down o lugar que lhes compete numa comunidade especial.

De fato, Line Rondelot chegou ao ponto de propor ao Vaticano uma regra de vida comunitária adaptada aos portadores de síndrome de Down.

Finalmente, não esqueçamos uma das personalidades mais discretas, mas sem a qual a comunidade poderia nunca ter surgido: o Padre Henri Bissonnier (1911-2004), investigador e professor de psicopedagogia, que ao longo da sua vida testemunhou que as pessoas com deficiência mental são “capazes de relações, progresso, autonomia, inteligência de coração e uma vida espiritual”. Ele disse alto e bom som:

“No campo da vida espiritual, a noção de deficiência não tem lugar”.

Agora que Marie-Ange foi para o Céu, as Irmãzinhas rezam à sua irmã para interceder por novas vocações de religiosas, a fim de perpetuar a comunidade.

Uma lição para o nosso tempo

O termo “belo” nunca é usado na nossa sociedade para uma pessoa com síndrome de Down. No entanto, ao ler a vida da Irmã Marie-Ange, é o que vem rapidamente à mente: ela é “toda bela”, por dentro e por fora. Viveu a sua santidade na alegria de ter seguido e amado a Cristo, e, por assim dizer, transfigurou em Cristo as marcas da sua condição pessoal.

Sim, Deus ama as pessoas, todas as pessoas; ama a todos os que têm limitações graves, liberta-os pelo poder do seu amor e os convida à santidade tanto quanto as pessoas consideradas “mais capazes”.

“O que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração” (1 Samuel 16, 7).

O testemunho luminoso da Irmã Marie-Ange nos convida a resistir à violência do nosso tempo, que continua a negar às pessoas com síndrome de Down o direito de viver, ou mesmo “o direito de ser pessoa”, segundo a bela expressão da filósofa Jeanne Hersch.

O exemplo da Irmãzinha Marie-Ange e da sua comunidade nos lembra, pelo contrário, o mistério insondável de Deus, cuja preferência é pelos “muito simples”. Como diz a Bíblia: “Quem for simples apresente-se!” (Provérbios 9, 4) ou “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos” (Mateus 11, 25).

Fonte! Buscamos esta postagem no sítio oficial da Rádio Aliança 106.3 FM de Porto Alegre: http://alianca.fm.br/noticias/interna/15276

sábado, 9 de janeiro de 2021

A vocação é um olhar para o futuro!

O título pode sugerir uma fuga do presente e induzir a pensar que a vocação seja uma realidade utópica. Contudo, recordam-se aqui as palavras de Julián Marías: "o ser humano é futuriço". Isso quer dizer que deve viver o presente projetado para frente, num futuro escatológico e de salvação realizada, mas, sobretudo, num futuro próximo. Todas as nossas ações realizadas conscientemente e movidas pela intenção foram em algum momento um projeto voltado para o futuro. Aquele que decide visitar os pais, por exemplo, pensa que deve ir à casa dos pais e organiza no pensamento como fará isso, antes de a visita acontecer. Claro que projetos desse tipo são vivências simples e que dificilmente alguém se dá conta disso no cotidiano. Quando falamos em vocação, existe também um projeto e que é muito maior.

A vocação, que é chamado de Deus, envolve uma dupla dimensão. Uma é a comunitária, pois Deus deseja salvar um povo que chama de Seu, que é a Igreja. Outra é individual, visto que Ele chama a cada um para fazer parte desse povo. Dentro dessas suas dimensões está a primeira e mais importante vocação, que é o chamado à santidade. Em vista da santidade e da salvação, Deus chama alguns a realizar missões específicas, dentre as quais está a sublime vocação ao ministério ordenado, à qual nos requeremos exclusivamente daqui para frente.

O ministério ordenado é o encontro de dois projetos, o de Deus e o da pessoa que é chamada. Não existe vocação por acaso, mas sim uma proposta da parte de Deus e uma resposta da parte de quem é chamado; realidades que nem sempre se encontram. No caso da vocação, o projeto de Deus, lançado para o futuro, exige a colaboração humana para acontecer e, por isso, exige daquele que é chamado a inclusão desta proposta no seu projeto de vida. 

Até aqui não foi dito nada de novo. O que se quer provocar como reflexão e desafio para aquele que se sente chamado ao sacerdócio e para as famílias que acompanham a caminhada dos nossos seminários é a coragem de olhar para o futuro. O futuro do que se está falando é tanto aquele próximo, daquilo que se fará amanhã ou semana que vem, quanto o futuro salvífico, para o qual  deve estar orientada a vida do povo de Deus. Olhar para o futuro é considerar na própria vida o projeto de salvação e, dentro desse, colocar o projeto de vida pessoal. É importante saber que sem projeto não existe futuro que não seja um movimento de inércia ou, na linguagem popular brasileira, o famoso "deixa a vida me levar", que na realidade é a via da morte, pois não dá à própria vida, pois não dá à própria vida um sentido.

No tempo atual, de pandemia e de incertezas sobre o futuro da humanidade, a vocação ao ministério ordenado deve ser encarada como um meio poderoso de reavivar a esperança no mundo, e vocês, família e jovem, podem ser protagonistas, sob a ação do Espírito Santo, dessa missão que conduz à salvação, tendo a coragem de romper com a inércia, orientando-se para o futuro com decisão. E a decisão principal é a de buscar unir o projeto de vida pessoal (lembrando que a própria vida obriga a ter um projeto pessoal caso se almeje uma felicidade verdadeira) com o projeto de Deus, que espera ansiosamente uma resposta. O jovem é chamado à vida presbiteral deve buscar responder a Deus na oração e na vivência da fé cotidiana. Já as famílias têm missão de incentivar os jovens, muitas vezes ajudando a apontar o caminho da graça. Por fim vale lembrar que a transformação da humanidade e o norte do caminho certo pode dar-se através do olhar para o futuro, que é tarefa de cada um.

Fonte! Texto de autoria do Pe. Talis Pagot, de novembro de 2020 (Campanha Amigos do Seminário).

Créditos da arte!  https://calabriameufuturo.blogspot.com

Esta é uma publicação da PASCOM - Pastoral da Comunicação da Paróquia Santa Hedviges, de Alvorada (RS).